A China, por meio da Jiangnan Shipyard, uma das maiores construtoras navais do mundo, revelou um projeto ambicioso de uma ilha flutuante movida a energia nuclear. A iniciativa visa criar um terminal de transferência de contêineres e uma plataforma de energia com zero emissões, marcando um passo significativo na busca por soluções sustentáveis para o transporte marítimo global. !Conceito de ilha flutuante nuclear da Jiangnan Shipyard Inovação em Energia e Logística Marítima O conceito foi apresentado na Exposição Internacional de Navegação Posidonia, em Atenas, um evento chave para a indústria náutica. A estrutura proposta seria alimentada por reatores de sal fundido (MSR), uma tecnologia avançada que utiliza sal liquefeito como combustível e refrigerante. Essa abordagem permite o armazenamento de grandes volumes de energia térmica sem a necessidade de água para resfriamento, segundo o South China Morning Post. A Jiangnan Shipyard descreve o projeto como uma resposta crucial para a transição da indústria de transporte marítimo rumo à neutralidade de carbono. A ilha flutuante integraria um reator nuclear, painéis solares, uma turbina eólica, um módulo para produção de hidrogênio e síntese de combustíveis verdes, além de um módulo de fornecimento de eletricidade. Este conjunto formaria o coração de emissão zero da plataforma. A funcionalidade da ilha se estenderia à transferência de cargas entre navios e ao reabastecimento de embarcações que operam com combustíveis alternativos ou eletricidade. A proposta centraliza em um único complexo funções que, tradicionalmente, são distribuídas entre diversos portos terrestres. Avanços Chineses em Propulsão Nuclear Civil Além da ilha flutuante, a Jiangnan Shipyard está desenvolvendo outros projetos nucleares civis. Em 2025, a construtora divulgou especificações técnicas de um navio cargueiro nuclear, também impulsionado por um reator de sal fundido à base de tório. O tório é considerado um elemento mais seguro e abundante em comparação com o urânio. Este reator possui uma potência térmica de 200 megawatts e uma vida útil projetada de 40 anos, de acordo com a Interesting Engineering. O navio cargueiro teria capacidade para transportar até 25 mil contêineres padrão, com planos para versões menores a partir de 14 mil unidades. A fase de projeto deve ser concluída em 2026, com a construção possivelmente iniciando no final desta década, conforme reportado pelo SplashAtualmente, nenhum navio mercante movido a energia nuclear está em serviço comercial. A Tecnologia dos Reatores de Sal Fundido Os reatores de sal fundido de quarta geração operam em altas temperaturas e baixas pressões, eliminando o risco de fusão do núcleo presente em reatores convencionais. Em caso de falha, o combustível de sal fundido solidifica-se automaticamente em uma câmara de segurança, confinando os materiais radioativos sem intervenção humana. A ausência de necessidade de água para resfriamento torna essa tecnologia particularmente adequada para ambientes marítimos. Contudo, a implementação dessa tecnologia enfrenta desafios de engenharia, como a corrosão causada pelos sais nos componentes do reator, e obstáculos regulatórios internacionais significativos. A Organização Marítima Internacional (IMO) ainda não estabeleceu um conjunto de regras específicas para a operação de navios mercantes nucleares. A Corrida Global por Soluções Navais Sustentáveis A iniciativa da Jiangnan surge em um momento de intensa busca por alternativas ao combustível pesado, responsável por aproximadamente 3% das emissões globais de dióxido de carbono. Na Posidonia 2026, a propulsão nuclear emergiu como um tema central, refletindo um crescente engajamento de governos, armadores, bancos e seguradoras. Charlotte Vere, diretora de desenvolvimento de mercado da CORE POWER, empresa britânica de propulsão nuclear marítima, destacou à Transport Advancement que o impulso para essa tecnologia está em ascensão. Embora Coreia do Sul e empresas europeias também explorem o potencial de navios nucleares, a escala e a velocidade do programa chinês, apoiado por recursos estatais, são notáveis e sem precedentes no setor privado ocidental. O desenvolvimento dessas tecnologias pela China pode redefinir os padrões de sustentabilidade e eficiência no transporte marítimo global, impactando diretamente a logística e o comércio internacional.